Mora é uma cidade: a tradição de entalhe por trás da faca que está na bainha de muita gente

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Olhe a roda em qualquer encontro e ela aparece: cabo colorido, bainha de plástico, lâmina reta,
e a palavra Mora gravada no aço. Para muita gente foi a primeira faca de mato. Tem quem conheça a história dela de trás para
frente; este texto é para quem nunca parou para perguntar de onde ela vem, e para quem já sabe
ter onde apontar quando alguém pergunta.

Porque o que está gravado ali não é uma marca inventada em escritório. É o nome de um lugar.

O nome é de um lugar

Mora é uma cidade na província de Dalarna, no centro da Suécia. A faca vem, mais exatamente, de
um vilarejo ao lado chamado Östnor, onde faca se faz há mais tempo do que a marca existe: a
própria Morakniv registra que Finn-Anders Andersson já tinha oficina de produção em escala em
Östnor na década de 1870.

A contagem oficial da empresa começa em 1891. Naquele ano, Frost-Erik Erson voltou da América do
Norte e abriu em Östnor uma fábrica de carroças e trenós. A faca era ferramenta de uso interno da
oficina, feita para o trabalho da própria casa. Deu certo demais para ficar lá dentro. Virou
mercadoria, e foi mascate que levou a faca de Mora pelo interior da Suécia.

Em 1904, com dez empregados, a fábrica dos Frost produzia 19 mil facas por ano. E aqui está o
detalhe que interessa a quem entalha: a página de história da empresa diz que, na virada do
século, a faca de Mora já era conhecida entre artesãos e entalhadores. Na versão em sueco do
mesmo texto, a palavra é slöjdare. Guarde essa palavra, porque a gente volta nela.

Em 1912, Krång-Johan Eriksson, o KJ, saiu dos Frost depois de uma briga com a chefia e abriu a
própria fábrica, também em Östnor, com Lok-Anders Mattsson. Foram duas fábricas de faca no mesmo
vilarejo por quase um século. Nos anos 1920, a palavra Sweden passou a ser gravada no aço como
marca de qualidade, e o cabo vermelho virou a assinatura da faca de Mora. Nos anos 1930, a KJ
lançou a Sport Knife, criada como a primeira faca de uma criança, que ficou conhecida como faca de
escoteiro. Em 1938, o jornal de Mora noticiou que Östnor produzia um milhão de facas por ano.

O resto é consolidação. Nos anos 1950 e 1970 o plástico substituiu borracha, madeira e couro
no cabo, e a faca ficou mais barata. Em 2005 a fábrica dos Frost virou subsidiária integral da KJ
Eriksson AB e o conjunto passou a se chamar Mora of Sweden; desde 2016 a empresa se chama
Morakniv AB. Toda faca continua sendo feita em Östnor.

A palavra que a gente guardou: slöjd

Slöjd é a palavra sueca para trabalho manual, artesanato de uso. Cobre madeira, têxtil e metal,
mas no carving é da madeira que se está falando.

Ela tem duas vidas. A primeira é a tradição de casa: o objeto de uso feito em casa, com faca e machadinha, em madeira verde. A colher, a tigela, o cabo de ferramenta. A segunda vida é a escola.
Em 1872, Otto Salomon e o tio dele, August Abrahamson, fundaram em Nääs, na região de Gotemburgo, uma
escola de ofício para meninos, e em 1875 uma escola de formação de professores de slöjd. A ideia
era ensinar a pensar pela mão, com o trabalho em madeira dentro da escola comum. O manual de
Salomon para professores saiu em inglês em 1891, o mesmo ano da fábrica dos Frost.

A tradição chegou ao carving de hoje por um nome próprio: Wille Sundqvist. Ele escreveu o livro
que muita gente do meio trata como texto de base do trabalho com madeira verde, Swedish Carving
Techniques, publicado em 1990. Morreu em 3 de junho de 2018.
O filho dele, Jögge Sundqvist, é entalhador, autor e embaixador internacional da Morakniv, e
gravou para a marca a série Swedish Knife Grip Sessions, que está no YouTube de graça.

Ou seja: a faca que está na sua bainha nasceu numa oficina de carroças, cedo virou faca de gente que entalha, e a família que hoje ensina o mundo a segurar essa faca é a mesma que carrega a
tradição do slöjd. Faz sentido a lâmina ter a forma que tem.

O que muda na prática

Aqui é onde a história vira coisa útil.

1. O fio é reto até a ponta, e isso é decisão, não economia. A Morakniv chama de Scandi
Grind: o bisel é chanfrado em plano único, da lateral da lâmina até o fio, sem a segunda inclinação
que a faca de cozinha tem. Os números oficiais: ângulo total de 23 graus (11,5 por lado) em lâmina
de até 2,5 mm de espessura, e 27 graus em lâmina mais grossa. Em cima disso a fábrica põe um
microbisel de 35 a 45 graus, com altura entre 0,05 e 0,5 mm, para o fio não lascar. E a própria
empresa avisa: esse microbisel não é o bisel secundário do estilo americano, são coisas diferentes
com usos diferentes.

O que isso muda: um plano só, largo, é um guia de apoio. Na madeira, ele deita e controla a
profundidade do corte. É por isso que a Mora entalha bem e uma faca de cozinha, com o fio que tem, não faz o mesmo
serviço.

2. Afiar é deitar o bisel na pedra, não inventar ângulo. Como o plano é um só, a afiação é a
mais simples que existe: apoia-se o bisel inteiro na pedra e trabalha-se com pressão leve até
sentir a rebarba do outro lado. A própria Morakniv recomenda o truque da caneta: pinta-se o bisel,
dá-se uma passada, e olha-se onde a tinta saiu. Se saiu por igual, o ângulo está certo. Se saiu só
na ponta, a mão está levantando demais. Quem afia uma Mora como afia faca de cozinha, erguendo a
lâmina para "pegar o fio", cria um segundo bisel e a faca deixa de entalhar como antes. Dá para
recuperar, mas custa aço e tempo na pedra grossa.

3. Faca de carving é outra régua. Nas facas de entalhe a Morakniv usa o Scandi Grind Zero,
sem microbisel nenhum. Corte mais agressivo, fio mais delicado. A recomendação oficial para elas é
27 graus no total: abaixo disso, perto de 20, o fio fica frágil demais para madeira.

4. A pegada faz parte da ferramenta. Se a lâmina foi desenhada para o slöjd, o jeito de usar
vem junto. Os vídeos do Jögge Sundqvist têm um episódio para cada pegada: a do cotovelo, a de força, a
do joelho, a da faca de gancho. O corpo inteiro trabalha, não só o pulso. Custa nada assistir, e
muda mais a segurança de quem está começando do que qualquer faca nova.

Uma pergunta para a roda

Qual foi a sua primeira faca de mato? Foi uma Mora, uma faca de cozinha da casa dos pais, uma
peça feita por alguém daqui? E, se você já afiou uma Mora com bisel secundário sem saber, como
foi voltar ao fio original?

Conta no grupo, ou publica no seu perfil marcando @picoaltobushcraft com a tag
#praticadoalto. O que aparecer vira matéria com o crédito de quem mandou, e vira acervo que
fica. Fica valendo também para quem faz lâmina no Brasil com esse tipo de fio: a gente quer saber
quem é e onde está, para o mapa.

Fontes conferidas em 11 de setembro de 2026: página de história da Morakniv (morakniv.com, "About Morakniv", linha do tempo de 1891 a hoje, versões em inglês e em sueco); página "Knife history in Dalarna and Mora" da Morakniv, para a oficina de Finn-Anders Andersson na década de 1870; página "Grinds and edge angles" da Morakniv, para os ângulos do Scandi Grind e do microbisel; página "How to sharpen a knife" da Morakniv, para o truque da caneta e o ângulo das facas de entalhe; Fine Woodworking, nota de 6 de junho de 2018 sobre a morte de Wille Sundqvist e a primeira edição do livro em 1990; Arkansloyd, "Sloyd: Handicraft and Education from Scandinavian Tradition", para Otto Salomon e o manual de 1891; verbete Otto Salomon na Wikipédia em inglês, para as datas de Nääs; playlist "Morakniv Swedish Knife Grip Sessions" no YouTube.

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